Postado por Carmen hulmides
Em 1450, a invenção de uma prensa gráfica por Gutenberg na Europa, modificou o rumo da história da leitura. Não era uma novidade absoluta, pois na China e no Japão já havia impressão desde o século VIII, com blocos de madeira talhados imprimindo uma única página — mas a invenção ocidental possibilitou o surgimento de uma nova ordem. Foi o fim do monopólio do clero sobre textos e o início da popularização de um artigo que se tornou, com o passar dos tempos, rentável, além de uma fonte de transmissão de informações variadas e um objeto de lazer.
Apenas cinqüenta anos após o feito de Gutenberg, 13 milhões de livros circulavam em uma Europa de 100 milhões de habitantes. Mas, como qualquer novidade, o livro enfrentou resistência. Os escribas, ameaçados pela nova tecnologia, eram contra a impressão gráfica. Para a Igreja, era uma ameaça, pois permitiria aos leitores que ocupavam baixa posição na hierarquia social e cultural do clero estudar os textos religiosos por conta própria, não mais confiando no que as autoridades afirmavam. Até os jornais (que hoje apóiam a difusão do pensamento) no século XVII veriam problemas: na Inglaterra, na década de 1660, publicavam que “mais males que vantagens eram causados ao mundo cristão pela invenção da tipografia”. E o poeta inglês, Andrew Marvell, em 1672, viria a dizer: “Ó Tipografia! Como distorcestes a paz da Humanidade” (Burke, 2004: 28).
Voltemos ao passado: a tradução da Bíblia para o alemão por Lutero, entre 1523 e 1530, foi importantíssima para a difusão dos textos que se iniciou na Idade Moderna, dando início ao declínio do latim para a comunicação escrita. No campo da política, em 1539, o rei da França, Francisco I, ordenava que os documentos legais fossem escritos em francês, coincidindo com o fortalecimento de um nacionalismo emergente.
O uso da escrita em língua vernácula também foi de extrema importância para o sucesso da comercialização do material impresso e, contrastando com a Idade Média, em 1550, houve um boom de títulos. Com isso, surgiu a necessidade de ampliação de bibliotecas, além da criação de catálogos, não apenas para facilitar a divulgação do material impresso, mas também para tornar a escolha do leitor uma tarefa mais simples.
Mais adiante, no século XVII, resenhas das publicações passariam a ser feitas para ajudar os leitores a decidirem sobre o que ler.
Entre os séculos XVI e XVII, a Igreja Católica criou o Index dos Livros Proibidos: um catálogo de obras que os fiéis estavam proibidos de ler, como um antídoto ao protestantismo e à impressão gráfica. Foram proibidos três tipos de livros: heréticos, imorais e mágicos. Podemos imaginar o que seria da série Harry Potter ou de O Código da Vinci, se o Index ainda estivesse em vigor..
Na verdade, o Index escondia o medo de que as pessoas começassem a pensar por si só — como aconteceu a Mennochio, o moleiro italiano, considerado herege pela Inquisição por pensar diferente do outros porque sabia ler e que, por isso, foi executado na fogueira em 1599. Mas não apenas a Igreja católica promoveu a censura.
Embora de forma menos eficaz, certos livros também eram proibidos aos protestantes. Tal ineficiência deve-se à sua fragmentação em diferentes igrejas: ao contrário da obediência ao Papa, aos protestantes houve divergências entre o que era proibido ou não.
A indústria de livros se desenvolvia continuamente e a comercialização do lazer incluía a leitura. Livros de piadas ou romances eram impressos e bem consumidos pela população. Era o princípio do conceito de leitura como fonte de prazer.
Com a prensa e a difusão dos textos escritos, surgiu um público leitor e um novo comuns são sobre a ausência da leitura na vida dos alunos.
Parecendo esquecer das novidades de nossa época, muitos depreciam a tecnologia e a alta comunicação existente entre eles — no Orkut, por exemplo.
Se hoje vivemos um período de liberdade de expressão, devemos àqueles homens e mulheres que desceram do muro da conformidade e mudaram o mundo, literalmente. Se antes, o livro pertencia aos nobres e ao clero, o povo pôde, finalmente, ter acesso a ele.
Popular entre as elites,o livro atingiu a um público novo e ávido,no mundo moderno.O interesse do camponês pela leitura coincidiucom a Reforma Religiosa, com as Luzes e a mudança da ordem européia.
Contudo, sob resistência ou não, houve uma explosão de informação, algo semelhante ao que temos em nossos dias com a Internet: muitos amam, muitos não compreendem, mas é inegável a quantidade de informação que por ali circula.
uma tarefa mais simples. Mais adiante, no século XVII, resenhas das publicações passariam a ser feitas para ajudar os leitores a decidirem sobre o que ler.
No entanto, vale lembrar que as mídias oral e escrita coexistiam e interagiam na Europa dos séculos XV e XVI. A suposta “morte” da tradição oral não ocorreu, até porque só uma minoria da sociedade era letrada, enquanto a comunicação oral se fazia em dialeto local. Havia os sermões, importantes tanto para católicos quanto para protestantes (Lutero considerava a nova técnica “a maior graça de Deus”, mas a igreja, “uma casa da boca”, expressando a importância dada à fala); o ensino nas universidades, baseado em palestras, debates ou disputas que testavam a habilidade lógica dos estudantes; o canto (especialmente a balada, canção que contava uma história); os boatos (estudados cronologicamente por Lefebvre, que os usou como evidência das tensões sociais).
A questão que nos move é: Gutenberg promoveu uma revolução? Para Marshall McLuhan (1962), houve a mudança do foco auditivo para o visual: a “cultura das publicações” — ligação entre a nova invenção e as mudanças culturais no período. Segundo Elizabeth Eisentein (1979), a impressão gráfica foi uma “revolução não reconhecida”, seu papel como agente de mudança não foi devidamente valorizado.
No entanto, ao observar a materialidade e os modos de composição do livro, Roger Chartier (1999) afirma que “a transformação não é tão absoluta como se diz: um livro manuscrito e um livro pós-Gutenberg baseiam-se nas mesmas estruturas fundamentais – as do códex”. A montagem dos cadernos, a paginação, numeração são heranças que o livro moderno carrega. E, curiosamente evidencia-se hoje que, antes do códex, o texto corria lateralmente, no pergaminho; agora corre verticalmente na tela do computador. Vivemos a era pós-códex.
Talvez a grande revolução tenha sido a mudança da língua utilizada. O latim limitava muito o acesso aos textos. A popularização do livro se deu a partir do uso das línguas vernáculas. Se todo o processo de impressão mantivesse a comunicação em latim, não teríamos a tal explosão de títulos. O pensamento só se difundiu e tornou-se passível de críticas ou discussões a partir do momento em que as pessoas entenderam o que estava escrito.
Isso, sim, foi importante para o leitor e, ao mesmo tempo, perigoso para os críticos da prensa.
Será que Gutenberg imaginou que seu invento, possibilitando a difusão do pensamento através dos textos, causaria tantos conflitos?
terça-feira, 30 de outubro de 2007
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4 comentários:
um grande feito para historia realmente..
Não sei se Gutenberg imaginou, só sei que estou, aqui, agradecida a ele.
Ótima resenha! Me salvou aqui.
Bravo
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